Mário Sérgio

Até pouco tempo atrás eu estava morando na “capital do calor” Palmas e sentindo falta desse nosso clima tão especial de Dianópolis. Não só do clima, mas dos rios, lagos/lagoas e do nosso povo. Já estou aqui a mais de um ano, mas mesmo de forma transitória, pois estou apenas cedido pelo órgão que trabalho, já fico a nutrindo o sentimento de ficar por aqui em definitivo. Na verdade, muitos me questionam minha volta e eu digo sempre que eu saí da capital do estado e voltei para eterna capital do mundo. Contudo, só é capital mesmo para aqueles que amam de verdade este torrão. Para os que se orgulham em dizer que nasceu ou viveu nas terras das Dianas. Apesar de não ter vindo da forma que eu sempre planejei, pois fui pego de surpresa em meu trabalho, ainda sim já me sinto privilegiado por estar aqui, perto da minha família e dos amigos, desfrutando daquilo que a gente tanto deseja quando está aí de longe.

Para falar a verdade, até agora fiquei meu agasalhando, digerindo o gole que levei em meu trabalho, juntando os cacos e remontando tudo. Até agora havia ficado somente no campo da observação com intuito de reaprender a morar aqui, pois muita coisa já mudou desde que fui embora. Quando a gente vem passar alguns dias de férias e/ou nos feriados tudo que vemos é alegria, mas quando se vem para morar a coisa muda. Mas não é diferente de nossas vidas, pois quem nos vê todo sorridente nem imagina o que já passamos na vida ou que temos que passar ainda diariamente. Nossa Dianópolis, como nunca deixou de ser, tem ainda muita gente que vive desconfiada, apartada do resto da sociedade, não só por conta da política, mas também pelo fato das pessoas preferirem mesmo se isolar em pequenos grupos. Aliás, coisa bem comum “nos grandes centros”, afinal, aqui é a capital do mundo, não é mesmo? A gente chega até a pensar que a cidade “é enorme”, pois tem gente que mora aqui e que você não encontra em lugar algum. Mas a impressão de grandeza logo passa, quando você vê como espalha rápido alguma notícia (ruim de preferência) sobre a vida alheia.

De qualquer modo, entre os prós e os contras que existem, prefiro mesmo é desfrutar daquilo que há de bom, pois em Dianópolis a gente sente verdadeiramente o cheiro das coisas. Aqui a gente observa melhor a vida, bem diferente do artificialismo que consumimos nas grandes cidades. Aqui a “pilha do relógio dura mais” e o consumo de gasolina chega a ser irrisório diante do que se gasta nas grandes cidades. O consumo de energia diminui muito com o ar condicionado, tanto da casa como do carro, e só aumenta mesmo o consumo (para quem gosta) do chuveiro quente e da cerveja com os amigos. Aqui, de certo modo, somos forçados a não entrar na onda do consumismo dos supérfluos em geral, de fast-food, enlatados e embutidos caros, muita coisa desnecessária a nossa saúde e a vida, mas que nas grandes cidades é hábito mais que comum.

Estando morando em Dianóplis, mais do que poder tomar aquela cervejinha gelada no Bandeirantes ou em qualquer dos bares da cidade, sem muita pressa e preocupação com horário e trânsito, a gente também costuma comer aquele feijãozinho feito no fogão à lenha, toma banho nos vários rios, dorme em chácaras, toma garapa de cana. Aqui a gente come os primeiros cajus e os primeiros pequis que brotam do cerrado. Aqui não temos a Friboi, mas achamos carne de excelente qualidade por preços bem mais em conta, sendo assim, o churrasco fica até mais saboroso. Temos um grande lago bem pertinho para pescar e muitas outras atrações turísticas que ainda nem conheço e que quero conhecer enquanto estiver por aqui.

Não poderia deixar de falar do saudosismo que nos acomete todo o instante, pois para todo lado que olhamos, a mente nos transporta para uma verdadeira viagem no passado, como por exemplo, quando vemos as crianças indo para o colégio João D’Abreu, onde estudei boa parte da minha vida. As ruas e os locais que costumávamos brincar. As pessoas que fizeram parte da nossa infância e adolescência, que nos param na rua para uma longa conversa. Ou seja, nos grandes centros, o passado é deixado de lado e focamos tão somente focados no presente e quando sobra tempo e dinheiro, investimos um pouco no futuro. Com isso, muita gente acaba deixando de lado as suas próprias raízes. Estando aqui, temos um presente bem mais aproveitado, temos também muito foco no futuro e vivemos cotidianamente com o passado ao lado, justamente para nos fazer lembrar verdadeiramente quem fomos e/ou somos. Não me importo com o pensamento daqueles que dizem que voltar para Dianópolis é regressão, na verdade, para mim, regredir é quando o indivíduo, nascendo onde nasce, acaba se esquecendo de aproveitar as coisas pequenas e simples da vida, para viver mergulhado no supérfluo, onde as pessoas só são vistas por aquilo que possuem e não verdadeiramente pelo que são. Regredir é se entregar de corpo e alma ao sistema capitalista, de tal modo, que você acaba tendo que penhorar a sua saúde, a saúde da sua família, tendo que restringir a sua liberdade, a sua alegria e o seu valioso tempo.

O “sistema” faz e quer exatamente que isso aconteça, juntar um montão de gente em um só lugar, para depois escravizá-los através do emprego. Não quero aqui ser hipócrita de dizer que não tenho aspirações financeiras e profissionais maiores e até mesmo de voltar um dia para Palmas, pois aqui ou em qualquer lugar do mundo, todos querem ganhar mais dinheiro, se dar bem na vida, ter uma boa profissão ou uma boa empresa. Aqui em Dianópolis, como em qualquer outro interior do Brasil, pode não trazer ainda as melhores formações, os melhores empregos, as melhores remunerações, mas na nossa vida capitalimaluca, tudo tem um ônus e um bônus. Nos locais onde mais se ganha dinheiro, nem sempre se tem o sossego e onde se tem um pingo de sossego, nem sempre se ganha muito dinheiro. Ou seja, é uma questão de escolhas para quem pode ter o luxo de escolher!

Há quem escolha tão somente o dinheiro e acaba morrendo e fazendo os mesmos 03 desejos que fez o famoso imperador Alexandre o Grande antes de sua morte. Para quem não sabe quais foram, ele pediu que seu caixão fosse carregado por médicos (para mostrar que eles não possuem poder de cura diante da morte), que todo seu tesouro conquistado fosse espalhado até o seu túmulo (para mostrar que os bens materiais aqui conquistados aqui permanecem) e que suas duas mãos fossem deixadas balanço no ar, fora do caixão (para que as pessoas vissem que de mãos vazias viemos e iremos). No mais, estando morando aqui novamente, pretendo ir comendo pelas beiradas, para não queimar a minha boca. Quero continuar aqui degustando só o que tiver de bom, sem muita gula, sem pressa de ser feliz!

Mário Sérgio Melo Xavier é dianopolino e observador das coisas