Mário Sérgio

Algumas pessoas conseguem passam a vida toda morando em um determinado local/cidade e não conseguem parar para refletir um pouco sobre como estavam às coisas há alguns anos atrás, como elas estão agora e como poderão ficar. Enquanto morei em Palmas, fazia muito essa reflexão, não só com relação a minha vida, mas também com relação a cidade, ao trabalho e tudo que me cercava. Algumas vezes, isso nos mostra se houve progresso ou regressão em algum ponto. Se houve mudança ou se tudo está no mesmo lugar. Se nossas atitudes mudaram ou se continuamos naquela mesma rotina. É mais ou menos o que acontece quando agente encontra um velho amigo depois de alguns anos e logo pergunta: Como vão as coisas? E as novidades? E daí então, durante as resposta dele, vem algo que pode nos surpreender ou simplesmente sair aquela velha resposta “que tudo continua na mesma”. Na verdade, a introdução acima é apenas para facilitar o entendimento daquilo que eu fiz durante o tempo que tenho morado em Dianópolis e que reflete um pouco do que irei discorrer agora, nessa segunda parte do De Volta Para Terra Das Dianas.

Logo de início, uma das preocupações/dificuldades que tive foi arrumar casa para alugar. Achava algumas casas com preços totalmente incompatíveis com a estrutura e localização que eram ofertados. Mesmo rodando bastante, não tive muita sorte e acabei morando ao lado de um vizinho que não trabalhava, não estudava e passava o dia todo ouvindo músicas com o volume nas alturas, chegando a estremecer as janelas da nossa casa. Do outro lado, havia outro que possuía um carro meio velho, mas que se o motor carregasse a mesma potência do som que tinha, sem dúvidas que ele seria o de uma Ferrari. Sofremos muito, foi altamente estressante e no final acabou prevalecendo a velha máxima de que os incomodados que devem se retirar. Diante dessa problemática, correndo atrás de polícia, de justiça e demais instituições possíveis, que poderiam resolver ou usar o fato como exemplo, pude identificar em Dianópolis, que não há o mínimo de vontade e interesse de se manter “uma ordem” por meio de um código de postura consistente, mais atualizado e que seja realmente cumprido/usado. E olha que o problema não é de hoje, pois todo mundo tem uma história de perturbação noturna para contar. Não adianta regulamentar os carros de som que fazem propaganda pelas ruas durante o dia, se durante as noites/madrugadas o som dos carros da garotada podem sair estremecendo as janelas das casas, fazendo disparar até mesmo os alarmes dos carros que estão estacionados nas garagens.

Nos meses que se seguiram em Dianópolis, notei também velhos problemas, como a constante falta de água que ainda persiste. Sem contar a internet e o sinal de celular de péssima qualidade, que também vivem caindo e saindo de área. Tenho notado que Dianópolis carece de uma agencia bancária (um pequeno o PAB que seja) de algum banco privado, como Bradesco ou HSBC, pois a Agencia do Banco do Brasil tem sido hoje um dos locais que mais agente passa raiva. Serviços simples, como retirar o nosso próprio dinheiro no caixa eletrônico é praticamente impossível, nunca tem o bendito dinheiro disponível. A falta de concorrência no ramo de supermercados que disponham de melhores condições estruturais, que forneçam mais conforto, qualidade/diversidade e melhor preço, também é algo muito comentado nas ruas. Além disso, em Dianópolis, ainda existe os dias certos de chegar o caminhão com as verduras e a carne. O segredo então para não faltar a salada ou a carne do churrasco na sua mesa è procurar chegar sempre primeiro que todo mundo nos açougues e/ou nos verdurões. Nos domingos, o programa é familiar, mas falta ainda uma opção para sair com a família para almoçar dentro da própria cidade e nas beiras de rios já não encontramos grandes coisas.

Por falar em rios, tenho visto com preocupação a situação daquele que banha o Cavalo Queimado e o Rio da Conceição, que está ficando muito raso, possivelmente devido a falta de regras na instalação de fazendas e residências nas margens. Sem contar ainda, que o clima da nossa cidade mudou muito, não sentimos mais aquele frio de antigamente, tendo que fazer uso de ventiladores e até mesmo ar condicionado, em determinadas circunstâncias. Para se ter uma idéia, aquelas baixadas do córrego Getúlio e Maria do Reis, onde em qualquer época do ano agente sentia muito frio, não surte mais o mesmo efeito. Aliás, basta ligar a TV para percebermos que as mudanças estão por todo o planeta e estão cada vez mais rápidas. Outro fato que observo desde que estou aqui é a falta de “capricho” por parte dos Administradores que aí estão. Algo simples, que não geraria tanto custo, como plantar novas árvores e flores, cuidar dos jardins e praças, trazerem um pouco mais de vida, alegria e beleza para cidade, já que as grandes obras cada vez mais dependem dos recursos federais ou só saem em período eleitoral. É seguir o lema de: “fazer mais com menos e melhor”. Mais ou menos como nós fazemos em nossas casas, quando pegamos o restinho de cada coisa na geladeira e fazemos um mexido caprichado, que no final acaba ficando uma delícia. Parece que as Administrações Públicas Municipais de todo o país tem sofrido mesmo com a falta de recursos, mas isso não justifica a dormência e a apatia. Estão precisando mesmo é aprender a fazer mexido. Fica visível que falta também mais envolvimento, vontade de mudar a realidade, o sistema, a forma e a visão de tudo. Falta liderança, responsabilidade e comprometimento em todas as áreas e esferas.

Fiquei triste quando no meu primeiro dia de trabalho no Fórum da cidade, me deparei com o estado de total abandono do Ginásio de Esportes (gerido pelo Governo Estadual), que fica logo aqui ao lado. Para mim é como se tivessem assassinado parte da história do esporte de cidade. Pois ali, além de servir como referencial histórico para as futuras gerações, de jogos da criança, Jet’s e de tantos eventos bacanas que ali já promoveram, é local primordial para se ter a prática de múltiplos esportes em qualquer época do ano. Ainda bem que alguns Colégios se esforçaram para construir uma quadra coberta, pois sem elas aí sim seria caixão e vela preta! Já basta agente não encontrar pela cidade as quadras poliesportivas em condição de uso, o que deveria ter em todo setor da cidade. Pequenas obras que podem transformar a vida de dezenas de crianças e adolescentes, que atualmente só tem encontrado o farto terreno das drogas para se divertir. Os altos índices de criminalidade na cidade, principalmente envolvendo menores é algo preocupante e não tem escolhido credo, cor nem classe social. Somente a educação e o esporte para mudar esse quadro caótico.

Por falar em Educação, finalmente temos em Dianópolis Universidades Públicas como a UNITINS e um Instituo Tecnológico Federal, todos com bons cursos disponíveis. Talvez esteja aí a grande mudança que Dianópolis precisava, pois transformando em uma cidade de universidades, a cidade inteira ganhará muito em todos os aspectos. A cada nova turma que se forma e a cada nova turma que ingressa, ela vai se solidificando, crescendo e tomando conta da cidade. Movimentos políticos, projetos sociais, esportes, eventos, festas e a cultura, são alguns dos campos que uma universidade pode explorar em parceria com as demais instituições públicas/privadas e a sociedade. Que venham cada vez mais cursos. Mais e mais pessoas de fora para somar e melhorar nossa cidade. A Universidade pode e vai ser um instrumento de resgate da verdadeira identidade intelectual dianopolina. Através dela, resgataremos as tradições e ao mesmo tempo plantaremos boas sementes para o futuro.

Mais do que no plano político, este sim é o nosso grande projeto de mudança e deve ser nosso maior investimento. Foi caminhando junto com as Universidades que muitas cidades cresceram, se tornaram melhores e se destacaram. É preciso que haja também um trabalho de base nas escolas e o movimento das universidades tratarão novo impulso também para educação infantil, fundamental e média. Penso também que o Instituto de Menores não deveria ter fechado as suas portas, apesar de terem aberto ela para algo muito importante, que foi a IFTO. Ainda assim, penso que daria para termos as duas coisas funcionando plenamente, inclusive, uma servindo de base para outra, trabalhando na mesma área, mas com pólos e autonomia distintos. Um Instituto de Menores mais moderno, que continuasse atendendo as crianças de famílias mais necessitadas ou com problemas na estrutura familiar (que não são poucas) e que pudesse continuar a velha parceria educacional com o nosso querido Colégio João D’abreu.

No campo social, melhor seria se não precisássemos em nossa cidade de uma Fazenda da Esperança, mas como é primordial, foi nesse campo que pude observar o quão Dianópolis está bem servido de Padre. O Pe Gleibson realmente tem revolucionado a Igreja Católica dianopolina em todos os aspectos. Ele é jovem, determinado, inteligente e crítico, não deixa a peteca cair de forma alguma. Com esta e outras medidas, tem nos dado belas lições. Tem demonstrado que quando a sociedade se junta, grandes transformações acontecem e os sonhos podem se tornar realidade. Isso é apenas uma pequena parte que tenho “observado” desde que cheguei por aqui, nas terras das Dianas... Tenho lançado meu olhar para tudo e todos, mas é um olhar simplório e carregado de leveza, de emoção e pequenas doses de preocupação. É algo como se estivesse fazendo uma análise de tudo que acontece dentro da minha própria família e da minha própria casa. Pois é exatamente assim que me sinto morando e falando de Dianópolis, como se estivesse de algum modo, tentando melhorar as coisas dentro da minha própria casa.

Mário Sérgio Melo Xavier é curioso, observador e continua analisando o dia a dia de nosso povo.