Ilton Pereira

Diantemão peço perdão, pois talvez não se faça claro, envolvente, profundo, convincente, quem escreve com o coração. A rima foi uma desordem do que gostaria de ordenar, prova de que o que vai ler é escrito por palavras coronárias, irrigadas de sentimentos precisamente imprecisos de tão inalcançáveis por outro meio, outro crivo, outra lente, outro substantivo para palavrear tais substâncias... Permita-me!

Há muito me vêm inúmeras nuances de um tempo, suas imagens, sons, faces, olhares, saudades, manhãs, ocasos. E com eles palavras esvoaçando de toda parte, por toda parte, de todo gênero, grávidas de sentidos plurais, claro, guardada a ressalva de minha singela capacidade, privilegiada, de tê-las pulsando nessa sensação que agora me invade, impulsionando ainda mais a vontade de falar daquele tempo... de que hoje, também, sou feito; na minha alegria de ter por lá vivido, ou ter a minha história marcada por aquele tempo e se impregnado de todos os seus encantos inapreensíveis por palavras, ainda que elas teimem querer me ajudar dizer...

São sensações indescritíveis que revoam nesse lugar onde guardamos os tesouros inesquecíveis, inquantificáveis recebidos de presente dos caminhos da vida. Gostaria de poder usar a música e sua capacidade de nos inebriar com a tessitura suavemente fantástica de tudo que a compõe, faz tocarem nossos pés distâncias inimagináveis, inclusive, em paisagens guardadas nos porões da memória, dessas de que quero falar aqui; mas não sou dotado de tal sensibilidade, portanto, utilizo-me dessa faculdade maravilhosa das palavras, um tanto mais democrática.

E peço-lhe perdão desde Já, a você que se doa benevolamente a essa leitura, se houver nelas a prolixidade, é que de certos sentimentos é impossível falar sem esticar o máximo o tempo e o meio de dizer, na ânsia de poder vivê-los um tanto mais neste futuro de onde tento revê-los... É como não querer despedir de quem faz parecer nítida a sensação de que sem, tudo vai ficar pela metade, e então se quer, minimamente, olhar até que a rua portal da distância drague aquela face, e com ela todos os perfumes, agora elementos do éter que são as saudades...

Quero falar de um lugar que ficou no tempo, embora tenha legado para esta posteridade uma densa impressão de que nós, que de lá viemos, trouxemos a resistência de não deixar que a beleza de que fizemos parte não se dissipe com as deste espaço do tempo de onde volto meu olhar. Será impossível, e tornaria um tanto pobre, falar dessas memórias sem citar nomes que iconizarão a tela dessa viagem que proponho. Os não citados não estarão padecidos de esquecimento ou desimportância. Provavelmente, cometerei, nesse sentido, injustiças, mas essa minha história é feita de todos que, embora, não nomeados, saberão que vivemos uma cumplicidade.

Este lugar a que me refiro é a Dianópolis dos idos anos oitenta, a partir do quarto ano daquela década, logo no seu limiar aportei naquela nau, que sequer imaginara. Relembre quanta coisa importante acontecia no mundo. Na terra brasilis gestavam-se importantes metamorfoses de cunho político, por exemplo, vivíamos o estreitar do caminho de um sistema duro que geria a vida naquela sociedade oitentista. E, sinceramente, eu desconhecia, por uma série de fatores. Veja, estudávamos OSPB (Organização Social e Política do Brasil), EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA, não conhecíamos dos abismos depois da borda das cartilhas, não nos era permitido. Ainda porque era apenas um rebento naquela fase já posterior à puberdade sem saber para aonde estava indo nessa saga de irmos ficando no tempo, dentro das idades pretéritas.

E comigo acontecia uma verdadeira revolução. Afinal, saíra de casa, do útero, do colo, tive o cordão umbilical da alma, verdadeiramente, rompido; ficaram para trás as minhas verdades, fantasias, infância, amigos, as ruas, os campinhos de futebol, minha principal alegria, o mais forte motivo por que eu fora de tudo que tinha, que era. Por volta de um ano e três meses antes tivera sido levado de nossa vida o patriarca, fato que desestabilizara a família, de que era o esteio, o mantenedor, o norte. Nem podia imaginar que viveria tão intensamente sentimentos indizíveis, imprescritíveis, imorredouros naquele lugar tão distante de casa...
Que eu aprenderia gostar de músicas outras, que eu pudesse fazer, quase que livremente o que mais gostava: jogar futebol, sem levar sovas semanais, afinal, essa era uma prática aversiva aos bons costumes, sobretudo, por que eu transgredia a ordem estabelecida, em razão da paixão pelo futebol.

Ainda não podia crer que eu me tornaria outra pessoa realimentada por todas as que se impregnaram em mim a partir dali. Tornando-me tão importante, tornando-me um amigo, um irmão, um namorado enamorado, uma pessoa de quem se sentiria saudades inevitáveis. Ao mesmo tempo em que, o aperto no coração da matriarca que ficara ainda desnorteada pelos acontecimentos marcantes, próprios da imposição da vida, era intenso, face à distância que se enfiou entre nós; acho que no coração de todos os outros também, acredito, principalmente, de meu irmão gêmeo de placenta distinta, meu cúmplice contemporâneo, Amigo, protetor, às vezes dedo duro. E, Como se não bastasse, naquele mesmo ano, 1984, em julho, a vida subtrairia mais uma pessoa da família, fora, para esse lugar depois da vida, uma irmã, ainda em tenra idade juvenil, com dezenove anos, apenas.

Dentro desse emaranhado de acontecimentos, entre ignorar a funcionalidade das coisas e viver seus efeitos, obedecendo a contigencialidade da vida, a bordo da bondade do Sr. Albino, a quem chamávamos Tenente Albino, que logo depois, já desembarcado no Instituo de Menores São José, ouvira chamá-lo: Sargento Albino. Essa é a primeira personagem, cujo nome e existência me é cara, assim como a de muitos outros, naquela nova bolha de viver em que me houvera inserido a própria vida e sua discricionariedade sobre a vida que eu ainda não sabia que não era minha. Essa pessoa me era o elo indefectível, a ideia do pai, do irmão, da família que ficara. Como eu não fora matriculado como aluno interno, morava com ele em seu puxadinho, que ficava atrás do refeitório, ao lado da lavanderia. Lá morávamos eu, ele, Marina, sua sobrinha e João Alves, meu amigo João Alves.

Tudo era muito para mim. Vagar por entre tantas pessoas nunca vistas, estranhas, não fosse uma certa razão de estarmos ali. Desentranhados, desanexados de nossas entranhas, de nossos nexos. Era como olhar e ver menos que um deficiente visual. Passar horas tentando encontrar algo em que segurar, para me sentir menos à deriva. Mais uma vez aquele motivo que me ajudou chegar até ali, ajudou-me de novo. Com alguma habilidade, fui melhor inserido nos grupos, passei a pertencer, o futebol começou a religar o sentido de não estar só, em que pese a multidão.
Eis que me foram sendo agregadas outras personagens, surgindo daquele contingente plural, às vezes hostil, outras, dócil, acolhedor. Elas vieram emergindo dos momentos do trabalho duro da lavoura, que não me era estranho, pois que era de minha origem. Também da escola, da mesa no refeitório, do sagrado futebol de todos os dias, sem a preocupação da reprimenda ao chegar a casa; dentre tantos outros momentos. Horários rígidos, tarefas sérias, afinal, o objetivo era educar a vida para a vida.

O nível escolar em que me encontrava, sétima série, colocou-me em um núcleo de personagens considerado privilegiado, diferenciado, que estudava na cidade, e, para lá, ia de ônibus, inesquecível busão dirigido pelo Sr. Geraldo, irmão do Sr. Gabriel. Dentre muitos outros alguns se destacavam por suas singularidades – Nego Bonfim, também alcunhado de Nego Gato; Persão, um dos zagueiros mais bruteiros que conheci por aquelas bandas; Edilson, de quem não me lembro apelido algum, exceto que era um mala metido a bonito; Jaitom, não sei se escreve assim seu nome, um cara muito legal, e muito bom de bola; Denilson, outro mala, que se achava o gostoso e bom de bola, cheio de banca; Osires, menos gaiato; Cocá, de quem, infelizmente, não me lembro o nome, gente boa, lembro-me bem que ficávamos, nos finais de semana sentados na calçada do grupo escolar, voltada para a estrada, aquela que nos trouxe até ali, e que nos mostrava a direção pretendida pela saudade; Nivaldo, Chiquita, o craque daquela época; dentre outros, mas olha, todos muito gente boa, pessoas a quem me afeiçoei, depois de um determinado tempo. Além deles tinham as meninas, filhas dos funcionários, chamados chefes, que moravam no povoado logo abaixo do prédio, onde residíamos. Dentre elas posso mencionar com muito carinho: Mazinha, filha do Sr. Monteiro, com quem Chiquita se casou; Tatiana, filha do vice-diretor o Sr. Gabriel, de quem tínhamos algum receio, muita bonita e pretendida; Ana, a Aninha, filha do Sr. Antônio, bela moça e Meire, filha do Sr. Gilberto, também muito cobiçada, com quem aprendi dançar dois passos, com uma música internacional muito linda: Give me your heart tonight – Shakin’ Stevens. São pessoas inesquecíveis, o carinho que lhes tenho é profundo e grato por terem se permitido doar a mim a amizade. E preciso confessar: naquela época nutri uma paixão por Ana e Tatiana, claro, não ao mesmo tempo, coisas da adolescência, que naquela época se apaixonava de uma forma muito bonita, pura e tal.

Mas há outros que não iam estudar na cidade. Pessoas maravilhosas, das quais não poderei esquecer, ainda que quisesse. Zezinho, um encrenqueiro bom de bola, colocou-me o apelido que ficou, que não direi aqui, claro. Charles, outro encrenqueiro, o único com quem fui aos tapas, mas nos tornamos amigos; Jeremias, muito meu amigo, oriundo de Caipônia, lembro-me bem, pois sentia muita saudades de sua terra, como eu da minha.

E uma pessoa maravilhosa, um irmão, que a vida me deu de presente que o é até hoje. Conheci-o pelo apelido dado: Pezinho, mas hoje ele é conhecido por Hans, seu nome revelarei se alguém não sabe: Valdonez, mora em Goiânia, até pouco tempo o seu restaurante era o point da galera dianopolina se reencontrar, porém, essas agruras da vida na grande cidade forçou-lhe fechar o horário em que era possível rever essas peças raras da Terra das Dianas. Esse cara me ofertou o aconchego de sua família. Nos finais de semana, sabia que não tinha para aonde ir, não só eu, mas muitos outros. Então nos levava a sua casa na cidade, onde sua mãe, Dna. Ditosa, uma pessoa maravilhosa, por quem fiquei considerado como filho, nos recebia com o coração. Esse Irmão acabou legando a mim seus irmãos dos quais, hoje, sou considerado irmão, um privilégio ímpar. E o engraçado que os conheci muito tempo depois, mas como se já fôssemos velhos conhecidos. Então passei muitos finais de semana na avenida central, próximo à água boa. Esse meu Irmão fora embora para a grande cidade logo depois que me honrou com sua bondade de ser quem é até hoje, e seremos, não tenho dúvidas. Rua muito importante em minha história, em razão dessa fraternidade inconteste, e de um amor ali vivido, de que falarei, inevitavelmente. Mas quando dos personagens da cidade.

Voltando ao Instituto, preciso falar dos educadores, pessoas inesquecíveis. Para representar a todos, posso citar: Nenga, grande amigo, lateral esquerdo do time principal em que eu sonhava jogar; Sr. Monteiro o alfaiate, doce pessoa; Simário, perdoe-me se não for assim a grafia do nome, rígido, gente boa, outro craque de bola, colocou-me de castigo uma vez, pois tirei nota abaixo da média; o Sr. Gilberto, o sapateiro, grande pessoa, raríssima; o Sr. Horácio, pai de Gilson, tio de Nego Mita, deste falarei mais adiante; pessoas maravilhosas; o Sr. Manoel, salvo engano da farmácia, pai de Guil, também não sei se escreve assim, mas um garoto de uma habilidade com a bola que dava gosto, infelizmente, não ficou muito tempo entre nós e Augustinho, irmão de Martinho, morava na primeira casa à esquerda da entrada do Instituto, próximo ao campo de baixo, em frente à casa do Sr. Monteiro. Vocês que ainda aqui estão e os que já foram chamados pelo silêncio eterno, eu os louvo, inscrevo vossas existências na minha singela e privilegiada pedra de existir. Sinto um verdadeiro e intenso carinho por todos vocês, afinal, são parte de minha história.

Neste lugar, a princípio, tido como a clausura, mostrou-me as várias formas de liberdade, de felicidade, de irmandade, fez-me viver coisas inesquecíveis que são parte da lição fundamental, que me tornou uma pessoa melhor, não restam dúvidas. Lição composta de todas as relações com e sem atrito; a saudade de casa misturada ao desentendimento de ter que viver aquela distância tão colossal do lar.

Dentre tantas memórias, lembro-me com imensas saudades das festas juninas. Recordo-me que uma garota linda cobiçada por muitos, engraçou-se comigo, e com ela vivi uma doce paixão adolescente, daquelas paixões daquela época, quando muito um abraço, se demais um selinho, mas um sentimento indizível. Seu nome, Kátia, com quem troquei cartas muito tempo depois. Aliás, ainda as tenho guardadas, assim como todas as outras trocadas com tantas outras pessoas advindas daquele tempo. Foi numa daquelas festas, após a quadrilha, realizada na quadra, no baile realizado numa das salas do grupo escolar, que Meire, filha de Sr. Gilberto, ensinou-me a dançar dois passos. Convidou-me e eu disse: não sei dançar; ela, bondosamente, disse: para aonde eu for você vai; pensei: assim ficou fácil, uma linda mulher me convida a dançar uma linda canção, citada anteriormete, não poderia decepcionar; pareceu até que tínhamos treinado.

Foram muitas as peripécias vividas naquele lugar, da vista deste futuro, encantado. Momentos de acre solidão e momentos de absoluta felicidade, pois produzida ali, influíram na mentalidade daquele garoto, apenas mais um dentro daquela escola de aprender viver desprotegido dos muros da família. Não ter para onde correr, quando tudo parecia sem saída... era gritar no deserto e ver levado pela indiferença dos ventos a esperança de um olhar protetor... Mas as abóboras se reajeitam no farfalhar da carroça, afinal, não se sabe quanto dura o caminho... E, é nítido agora: foi maravilhoso...

Dentre as ‘bramuras’ vividas, lembro-me bem de um acontecido em um dia de domingo, ao voltarmos da cidade, após o jogo do time do instituto, com vitória, claro. Como era de praxe, servia-se o famoso ‘rubacão’ – arroz com feijão cozidos na mesma panela. Mas havia muitos convidados do Dr. Wilson para o manjar. E o jantar teria sido feito para os alunos, quantidade que não previa surpresas. Em razão dos convidados, minguou a iguaria no prato de todo mundo. Então resolvemos eu e alguns amigos, visitar o pomar, o maravilhoso pomar do instituto, óbvio, era proibido. Lembro-me bem de Osires e Pérsio. Atacamos as laranjas, acho que cada um arrematou uma dúzia pelo menos, as cascas enterramos na palha de arroz, atrás da máquina de arroz.
Aquele pomar era muito vigiado, mas sempre era possível bem às escondidas, nos finais de semana, escorregar sorrateiros pelas suas opulentas variedades frutíferas. Certa feita precisei parar de respirar, para que o Sr. Gabriel que passava embaixo do pé de manga não me percebesse em seus galhos a fartar das melhores. Nesta estava comigo meu nobre amigo Jeremias. Como essas muitas outras incontáveis, inclusive, as que não se contam.

Permita-me ficar um pouco mais aqui no Instituto, é que preciso tornar sabidos mais alguns fatos marcantes, quem sabe conseguir dessa maneira dizer da gratidão que tenho por esse lugar distinto. O meu nobilíssimo Irmão, Nego Bonfim, promoveu-me profunda bondade, por certo, à revelia da ordem que devia cumprir, quando esteve no papel do padeiro. Serviam um pãozinho caseiro maravilhoso, e meu Amigo era um dos padeiros, além de Nivaldo Chiquita. Algumas vezes ele me presenteava com aquele saboroso pão quentinho amanteigado, inesquecível sabor, imorredoura lembrança de tão grande bondade. Quantos daqueles tantos não quereriam aquele privilégio... Obrigado meu Irmão! Assim é até possível rever o caráter aversivo de sua atitude. O quê, para a ordem estabelecida, era “criminoso”, dava-se num gesto de extrema bondade, já que não consigo outra palavra para dizer.

No instituto fiquei apenas seis meses, na verdade, nem sei muito explicar o porquê. Acredito que devo ter pedido para minha mãe, sei lá, certo é que findo seis meses voltei para casa. No entanto, nesses seis meses fizera o concurso para o Banco do Brasil para Menor Auxiliar de Serviços Gerais. Eram três vagas, que foram conquistadas por, salvo engano, em primeiro lugar: Aurélio, vulgo Aurelhão; em segundo: Ítalo Marcel e em terceiro: Euler. Fiquei na quarta colocação. Aurélio não assumiu, foi estudar acho que na capital, àquela época Goiânia. Então foi a minha caça, o Sr. Albino, buscou- me de volta, afinal, era importante para mim. Eis que voltei, confesso: infeliz.

E nesta nova fase, quando Dianópolis passa a ser além do lugar onde estudava, agora eu seria um sujeito ativo de sua história, pois faria parte da face produtiva da cidade, de uma forma jamais imaginada, conheci outra personagem de importância volumosa nesta história. Ele era filho da “casa grande”, em uma analogia destituída da maldade, geralmente, daí deduzida. Era um cara do bem, como diz Adriano, um outro cara gente boa que conheci na Dianópolis pós esta que estou prestes a proferir, ele era Gente, e ainda o é, não tenho dúvida. Falo do nobre José Angelo, ou, simplesmente: Zé Angelo. Era o craque da ponta direita do time do Instituto. Tinha uma moto envenenada, salvo engano XLX 250.

Mas a partir daqui, contarei na segunda parte dessa publicação, que em breve estará disponível para leitura. Certo é que são personagens e irrepreensíveis, inesquecíveis... tal qual a Dianópolis, onde nasci pela segunda vez...

Iton Alves Pereira, bacharel e licenciado em História (UFGO), por hora, acadêmico de Direito (FASAM GO), é inquieto com as relações de poder debaixo do sol.