Geraldo Neto

Quem nasceu lá no sertão, nos idos de 1978 ou próximo disso, lembra bem: a gente falava moco, abestado, atolemado, amocaiado. Mas agora não pode. Agora tem que dizer que fulano é “especial”. Pra ser mais atualizado, dizer que se trata de pessoa com deficiência. Gente: onde foi que erramos?
Já cheguei nos 36 e até hoje não cometi nenhum crime grave. Na minha animal humanidade, oscilo entre acertos e erros. Mas nunca perdi a noção, por exemplo, que devo respeito aos meus pais e aos mais velhos.

Fui criado num meio em que o moco era moco. O negro era preto. A fortinha era gorda. Eu já fui quatro zói. Já fui caolho. Fundo de garrafa. E eis-me aqui: crismado, pagando meus impostos e produzindo muito para o meu País. Operei das vistas, a propósito.

Não consigo entender onde esse mundo véi doido vai descambar. Paira em mim uma enorme dúvida: existe xampu para cabelo ruim? Porque no mercado se vê alguns destinados a cabelos cacheados ou lisos. Para o pior tipo que eu vi é esse que tô usando: recomendado para cabelos secos. Ou crespos. Não passa disso.

Perdemos a capacidade de sermos sinceros.

Crianças de hoje em dia são privadas de tudo. Um simples levantar a voz em tom de correção é condenado. Ontem li que uma mãe de um aluno foi na escola reclamar da nota do filho. Seria normal, se o marmanjo não estivesse fazendo MBA. Gente, deixemos de feladaputagem.

Estamos vivendo num mundo granjolão.

Alguém se lembra quando inseticida só tinha este nome? Há tempos mudou para defensivo agrícola. Bonito, né? Dá vontade de beber.

A esculhambação tá generalizada.

“E que te interessa saber de xampu se nem cabelo você tem”, alguém poderia me provocar. Se fosse em outros tempos, eu diria que se cabelo fosse bom não nascia no cu de todo mundo. Mas dizer isso hoje, ainda mais na internet, valei-me. Num sou besta. Eu não tenho cabelo, mas juízo não me falta.


Geraldo Neto anda meio descabelado com esse mundo doido. É radialista, pós-graduado em Recursos Humanos e em Assessoria de Comunicação e membro da Academia Dianopolina de Letras.