Ilton Pereira

Então é isso comecemos pelo fim, essa metamorfose do novo começo, aquele momento esperado, que se avoluma canibal, voraz, sem parada, flexibilidade, ponderações, mas que também não chega antes de lavarmos a alma deste tempo que, inevitavelmente, vai se findando dentro de nossa determinação cultural de construir fins e começos...

Foram muitas coisas, bem mais coisas do ponto de vista Carlos Drummoniano na pérola: “Eu etiqueta”. Compuseram o texto humano, nesta folha do tempo, todos os substantivos dentro dos quais inventamos, reinventamos iguais os mais variados estados. Consolidaram-se os Estados-Poderes e suas macro-substâncias prioritárias de existência, claro em detrimento dos estados outros, embora, imprescindíveis, prescindiram-se deles, como em todos os outros textos arquivados nos anais de nossa coisa que se foi...

Não acredito que deixamos de amar, de querer, de ser benevolentes nalgum momento de nossa angústia de termos conseguido ser muito pouco ou quase nada do dever ser, impresso na nossa própria promessa estatutária tácita e reverberada em nossos gatilhos puxados, inventados apenas para serem os arcos dos projéteis, irreversíveis, incontestáveis em sua certeza dicotômica de acerto e erro...

Estou a procurar algum vestígio das promessas do ano passado, mas a minha lente já não responde diante da fumaça, da poeira, da lama, da escuridão do silêncio, do barulho da vociferação aturdida, da rapinagem dos parlamentos, dos palácios, das assembléias, dos tribunais, das esquinas, que levantaram nas mesmas explosões, na mesma indiferença, na mesma razão das verdades convenientes, perdidas de outrora... Prometemos nos brindes de nossas taças humanas que buscaríamos o arrefecimento de toda fúria que somos... Lembro-me bem...

Como me lembro bem... Naquele brilho cristalino das promessas cruzamos os dedos e, de novo, creditamos toda nossa esperança. Mas o que dizer disso que já é isso que somos, com todas as certezas desmentidas, esvaziadas...? Viram-se ocas de tudo: do princípio da dignidade da pessoa humana, da aurora que anuncia sonhos realizados da rua asfaltada, da água encanada, da selva preservada, da escola matriculada na esteira da construção do mundo prospectivo desde a terra prometida dos idos tempos em que Deus se escrevia com ‘D’ maiúsculo...

As fronteiras caíram a tiro dos canhões de sempre. As “pessoas” tentaram fugir pelos mesmos caminhos de sempre, respiraram a mesma ânsia de todos os anos que se foram anteriores ou posteriores aos medievais tempos de tantas palavras proferidas rumo à liberdade, fraternidade, igualdade de tempos que o verbo guardava pro futuro; hoje já mais passado que este, que quase me engole o último suspiro de pensá-lo ido sem nada do que quisera ser, ter, realizar, revelar de novo, explosivo em sua hora última, velho como sempre, para ser novo...

As tramóias, costuras de teias cruéis, continuaram a ser amarradas do outro lado dos muros do poder, aqueles caras: os de sempre e os que pós revolução de gênero se agigantaram no direito de ser a face que faltava para compor o conceito da dicotomia humana de ser cruel no masculino e no feminino repelindo-se mutuamente. Todas elas patrocinadas por esses ‘homens’ sem face, abrigados na sombra que criaram para serem felizes, sobrepostos na miséria do resto; na fumaça da última pedra de craque, no último próximo projétil acionado pela sua mão invisível, na próxima desgraça econômica, política, religiosa, de qualquer América, qualquer bíblia de nome qualquer, combustível infalível de toda guerra que nos tem matado história afora, e nos matará mais a nós de toda gênese...

E o que é pior mesmo é, após refletir um tanto suficiente, descobrir que dentro deles estamos todos nós, no voto, na omissão, na covardia de dizer não: não à coca seja a que cola ou não; não à etiqueta de além mar, não à insígnia parlamentar do discurso perfeito, não à pose marqueteira emblemática do executivo infalível em prol da miséria perene do povo, seja o do centro ou da periferia. Todos na sina Arianossuassuniana de encontrarmos o fim inevitável atribuído de algum lugar da existência a qualquer... quiçá pudéssemos lograr tal fim todos juntos, quem sabe algum impulso reverberizador do humano verbo criado na gênese do gênesis, da fúria biblesca dos templos do jeito moderno de negociar aquele lugar no céu, pudesse nos reciclar...

E sou apenas humano, esse ser estranho de uma falibilidade fantástica, cujos impulsos se enclausuraram em conceitos que o definem sem se saber encontrado por outrem, perdido de si, nessa teia pegajosa do tudo ou nada... Assim querendo incrédulo expulsar-se dessa sepultura cidadã de mentira de uma democracia desavergonhada sem pudor algum de se macular impiedosamente, e, ao mesmo tempo, se lavar nesta lavanderia monstesquiana-esquerda de se intitular poder independente, por certo harmônico com seu projeto de negar-se em muitas de suas faces nefastas filhas da República desfiliada da RESPÚBLICA... desde sempre...

E aquele brilho do tilintar de nossas taças naquela fatia pretérita do tempo que nos veste, infelizmente, empalidece-se diante de nossas novas promessas deste novo momento de nos prometermos novamente... assim parecidos com o que fôramos. Mas quero apertar sua mão, abraçar seu abraço; quero crer que não somos tão isso tudo que é evidente, visto o irrefutável... Quero mais do que o que não posso dar, como sempre fizemos, esperançosos de nos reinventarmos, nesta esperança inconteste implorando pela nossa não desistência quase impossível... dada tamanha montanha intransponível de nós mesmos.

Só porque é natal, é desnudez daquele ano que não pode mais ser este, nem mesmo ele, só porque te abraçar me faz mais eu do que fui em todos os seus dias cinzentos... Só porque ter esperança é minha sina de neste fim poder ao seu lado recomeçar, ainda que não saibamos de onde, sobretudo para aonde ir... Mas que possamos nos aconchegar um nos esperançosos sonhos do outro, para que não sejamos apenas um sonho, como já dito em algum lugar do tempo e do espaço que ignoramos... como se pudéssemos na música ou no silêncio... E neste instante que brindamos um cálice a mais, Daquele, inclusive, de Chico Buarque do tempo em que a luz apagou, tal como essa que brilha apagada nesta ilusão de estarmos renascendo em Belém...

Então, permita-me enlaçar-lhe meus braços cansados de serem sozinhos nessa ânsia de dizer Feliz Natal, Feliz Ano Novo, ignorando, fundamentalmente, toda velha nuance havida por impossível de não ser neste tempo novo-velho que virá incontido, fazendo seguir o intangível entendimento de fim e começo...
Mas não importa, estou feliz por estar aqui... dentro desse abraço essencial... Obrigado, perdão se necessário... já não sei se meu abraço é de dissonância ou não, de sentimentos prometidos em tempos que se foram ou se de tempos de entrelaçar fronteiras que nos fizeram distantes nesses caminhos infronteiriços, senão pela fundamentalização em que me tornei... em que te tornei... Meu abraço, independentemente... Feliz, é claro! Em que pese a tristeza ao redor... Nem é para refletir, não dá mais tempo, o tempo já se esvai tão rápido feito aqueles projéteis de todo gênero, em todas as direções de nosso peito... teimoso em respirar a ilusão que sufoca todo ano, seja no começo ou no fim... As poesias tiveram que se ocupar dos espinhos e suas sangrias... não foi possível ver desabrochar as pétalas...

Tim tim... e dá cá, Abumjanramente, um abraço, “a única coisa falsa” desse instante eterno...

Iton Alves Pereira, bacharel e licenciado em História (UFGO), por hora, acadêmico de Direito (FASAM GO), é inquieto com as relações de poder debaixo do sol.