Zanone Rodrigues

Quando em Dianópolis não havia televisão, o circo era certamente uma das maiores atrações que existiam, e entre tantos que já passaram por lá, Circo Peteleco e outros tantos, me 

recordo do primeiro. Tinha cerca de 11 anos de idade.

“Hilton Circo” era o nome dele. Pra mim, o melhor espetáculo que já assisti em toda minha vida, sobretudo pelas dificuldades e circunstâncias que me levaram até aquelas
arquibancadas.
Desesperado ao ouvir do carro de som que anunciava entre outras atrações, palhaços, trapezistas voadores, malabaristas, mágico, mulher que engolia fogo, etc.. meu pai acabou se
deixando levar pelo meu desejo de vida ou morte, e num ato de extrema benevolência, apesar das dificuldades financeiras, me deu o dinheiro da entrada.

“Dois cruzeiros”. O ingresso custava Dez. E mesmo ciente de que contava apenas com 20% do mínimo necessário, parti decidido, era tudo ou nada.

“Já vai começar o espetáculo”. - Do auto-falante gritava alguém para o meu maior desespero. Desespero de ver todos entrando e eu ficando pra trás. Desespero de saber que apenas
uma lona e (alguns vigias) me separavam do maior sonho, mas com aquela quantia.. também tinha consciência de que era mais fácil transpor o “Muro de Berlin”.

Não tinha outra alternativa, era arriscar ser pego em flagrante e sofrer a maior humilhação na mão do palhaço publicamente, ou tentar subornar um dos vigias. Optei pela segunda
e como conhecia um deles, lhe ofereci os dois cruzeiros. Era tudo que eu tinha.

Tá doido! Só essa mixaria aqui? – Sussurrou ele nos meus ouvidos, com medo de que outro vigia percebesse o movimento. Mas como ele percebeu que daquele mato não saía mais coelho ou seja, dinheiro, e que eu não ia lhe dar folga enquanto não me deixasse entrar, acabou aceitando a gorjeta e pra complementar, me deu um cascudo seguido de um pescoção, que mesmo “sem querer querendo,” acabei furando aquela maldita lona e me agasalhando, desconfiado, no primeiro degrau da arquibancada. Onde de tão anestesiado com a magia daquele espetáculo nem senti a dor do cascudo que levei do vigia (inconformado com a mixaria que lhe dei).


Zanone da Água Boa Rodrigues é poeta de cordel.