Por que a nação é zombada no holofote global?
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O país mostra sérias falhas em organização
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O futebol volta à casa, e é celebrado mundialmente

O futebol é a única religião que não tem ateu. (Eduardo Galeano)

Fabrício Silva

Na Copa do Mundo de 1970, no México, ao cabecear com categoria uma bola, lançada na área por Tostão, que balançou a rede da Itália convertendo seu histórico e último gol em copas, foi como se a cabeça de um atleta múlti brilhante homenageasse seus ambidestros pés e brincasse: o futebol – do chamado football, em inglês, pé e bola –, se faz com os pés e com a cabeça. Pensando ou não dessa maneira, seu gol, abstratamente, vinculou o êxito da bola à precisão da inteligência. E não poderia dar lance errado. Talento nos pés, raciocínio rápido e eficaz foram as marcas inconfundíveis de uma formidável e gloriosa carreira que rendeu tantas alegrias aos brasileiros. Atualmente, porém, usar a cabeça parece ter sido tudo que o Brasil poderia ter feito, mas não fez, para que o país brilhasse por completo na organização desta Copa do Mundo FIFA Brasil 2014. Ineficiência, incompetência, mau uso do dinheiro público e impressionante falta de rigor com o calendário são críticas que o país tem recebido, à justa, como uma avalanche. Não se pode negar os benefícios que a Copa trará ao Brasil. Além da emoção de milhões de fãs brasileiros que ainda não tiveram a oportunidade de ver o torneio em casa, a Copa representa muitos avanços em alguns setores da economia, e trará benefícios longínquos pela infraestrutura que se conseguiu fazer. Igualmente, não se pode deixar de rechaçar a enorme e inaceitável negligência dos governos, principalmente os estaduais e o federal, com a aplicação astronômica de verbas públicas em luxuosas e superfaturadas arenas e na organização geral de um megaevento privado, substancialmente lucrativo para a Fifa, justo por se tratar de um país cuja maior parcela da população ainda perece na pobreza repulsiva, na mazela vergonhosa, sendo humilhantemente alijada – devido à ineficiência de quem legisla, julga e executa – de direitos sociais e políticas públicas de que são exemplos o acesso digno e amplo à educação, saúde e segurança.

No lendário Estádio Azteca, palco de duas decisões de mundiais, na Cidade do México, a opulência daquele cabeceio espetacular e matador sedimentou ainda mais, e para sempre, a carreira bem-aventurada de um atleta inteiro e de genialidade pouco discutida. Com a impulsão de pés fantásticos, pulou nos ombros do companheiro Jairzinho e ergueu o braço para dar um “soco no ar” – simbologia marcante de seu sucesso –, desta maneira, repetida mais de mil vezes. Naquela vez, por exemplo, o Brasil celebrava seu centésimo gol em copas, um orgulho para o time e história para uma nação que mistura bola com sentimentos. A excelência deste atleta nunca foi vista em outra pessoa. Ele acertava com os “pés no chão”, e com os “pés no ar”, e nunca marcou gol contra. O Brasil de 2014, ao contrário, que teve desde 2007 para organizar satisfatoriamente esta Copa, comprova, infelizmente, que antes mesmo de a promissora equipe de Luís Felipe Scolari entrar em campo contra a Croácia, no dia 12 junho, no Itaquerão, em São Paulo, já marcou um gol contra, pior, uma goleada. A organização deste torneio global se tornou um gargalo para governos falhos e incapazes que desperdiçaram, além do tempo, quase todas as oportunidades de mostrar que são sérios. Clubes, empreiteiras, municípios, estados, e União aparentemente se aliaram para decepcionar os brasileiros com centenas de promessas não materializadas, não apenas na realização de obras de infraestrutura que ficariam para uso da população, mas também no descumprimento dos prazos firmados pelo país internacionalmente. Na semana de abertura da Copa, ainda há obras nos estádios, 90% dos aeroportos ainda estão em reforma, a telefonia móvel promete frustrantes decepções aos visitantes, e apenas um terço da infraestrutura necessária ao evento internacional foi concluída, depois de quase 30 bilhões de reais gastos. Juntos, expuseram o Brasil como o país do atraso e da inaptidão e constrangeram seu povo. Dos doze estádios, por exemplo, apenas dois foram entregues no prazo, o Castelão, em Fortaleza, e o Mineirão, em Belo Horizonte. A moderna Curitiba por pouco não foi retirada da Copa. São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, teve tantos contratempos e atrasos que parecia se tratar da sede menos evoluída. Somente três dias antes da cerimônia de abertura o Itaquerão teve concedido o Alvará do Corpo de Bombeiros para funcionamento de uma ultramoderna arena que sequer foi testada apropriadamente antes de receber 68 mil pessoas para uma partida que deverá ser vista, ao vivo, por mais de três bilhões de pessoas. Muito pior do que serem marcadas pela demora e pelo abusivo “assalto” aos cofres públicos, as obras dos estádios reclamaram a vida de nove operários.

Em 70, o Brasil tinha, por certo, um dos mais badalados esquadrões de suas seleções, entre eles Clodoaldo, Gérson, Jairzinho e Rivelino. No México, a música mariachi parecia ser “Vamos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a Seleção”. O verso foi tão cantado que virou hino, um cântico, uma ode que alegrou um povo submetido aos grilhões da Ditadura Militar. Jamais surgiu uma equipe como aquela, fenomenal e com tão destacado esplendor, a despeito do duro momento político que vivia o país, que foi capaz de transformar o modo como se via e se pensava o futebol. Ali, ao conquistar seu tricampeonato mundial, o Brasil, enquanto povo e país esportivo, por meio daquele distinto grupo, solidificou duas reais imagens no consciente global: a de ser o país do futebol e a de ter o futebolista, para muitos, o atleta, do século. Um time pode facilmente estampar nos museus do mundo suas glórias, como também pode ser vaiado se errar e decepcionar. Já um país que organiza um Mundial, não corre apenas o risco de ser zombado, como a presidenta Dilma Rousseff o foi na abertura das Copas das Confederações no ano passado, pode até mesmo incendiar sua gente. Uma nação, como ocorreu com Brasil, que não levou ao rigor seu dever de anfitrião, e falhou na austeridade administrativa ao organizar a Copa, não apenas estampa nos painéis do mundo suas inabilidades e distância dos países desenvolvidos; mais além, e sobretudo, negligencia seu povo, compromete seus deveres, abre uma enorme fenda para a corrupção, facilita fortuitos e gratuitos interesses políticos e iniciativas do lucro, enfim, causa em sua gente, e até no mundo, uma acentuada indignação e um intragável sabor de derrota.

Com uma apresentação exitosa, a Seleção Canarinho deixou, na Cidade do México, uma marca muito inconfundível que catalisou ainda mais no Brasil uma fórmula tanto física como subjetiva: correr o campo com sagacidade, destreza e inteligência com a bola no bico da chuteira desperta em um povo voraz amor e incontida paixão pelo esporte. Este, em seu exercício, transforma vidas, alimenta metas e bons objetivos, além de ser saudável tanto para o corpo quanto para a sociedade. Para o brasileiro, quando a Seleção entra em campo, não é simplesmente o placar que está em jogo, mas uma tradição e grandeza que já parecem por si inspirarem a vitória ou a vontade de fazer gol. Por jogar um futebol bonito e artístico, nosso país tem sido, e é, o mais reverenciado nesta modalidade, indiferente se seu ataque balança a rede. Quando balança, e avança, e corre, e dança, e dá cambalhota, a reverência se converte em quase uníssona adoração. O amor e a paixão dos brasileiros por futebol são tão imensos que poucas nações no mundo podem reclamar para si estas e quaisquer outras igualdades neste esporte. Já a letargia dos governos municipais, estaduais, e, principalmente, federal, maior promulgador da Copa de 2014, além da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), conseguiu uma repreensível proeza: acanhar, e fazer receoso o povo brasileiro no que toca à comum, e quase patenteada, emoção com copas. Tímida na expressão de entusiasmo, a resolução do brasileiro passou às ruas, transformadas em palcos democráticos da reviravolta, do desassossego, das reivindicações, da insatisfação e da perturbação em massa. Não se deve estranhar quando um povo se sobressalta em manifestações. Normalmente, quando isso acontece, há alguma ou muita coisa errada. O povo angustiou-se, sentiu-se traído, não por sua Seleção de futebol, mas por sua liderança artificiosa, pela imagem negativa do país no exterior, pelas enormes falhas de planejamento. Os governos das doze sedes, extensivamente regidos pelos cofres da União, praticamente enganaram a população prometendo estradas seguras, mobilidade urbana eficiente, aeroportos modernos e ampliados, internet veloz, ausência de verbas públicas nas arenas, enfim, uma miríade de promessas fantasiosas. Ao conversar com os anfitriões da Copa em Salvador, Recife, Natal, Fortaleza, Manaus, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, percebemos muito claramente a diferença entre o discurso dos governos e a fala dos cidadãos. No decorrer dos últimos três anos, visitamos todas as sedes da Copa do Mundo, exceto Cuiabá (MT) e Porto Alegre (RS). Nossas visitas buscavam entender a realidade das cidades frente a seus desafios com a infraestrutura necessária ao evento: vias de acesso aos hotéis e ao estádio, capacidade hoteleira, corredores de trânsito, meios de transporte público, estrutura dos aeroportos, bem como a evolução das arenas. O resultado, desde o início, era desanimador. Em 2011 escrevemos um editorial com o título “O iminente risco da vergonha,” exortando sobre o grotesco descumprimento de prazos e metas em pelo menos seis sedes visitadas até então. Alertamos que o Brasil precisaria despertar urgentemente de sua visível sonolência para evitar o vexame e a zombaria globais. Pois bem, o país passou a descumprir prazo após prazo, enveredar, como de costume, em picuinhas políticas, falhar nos melhoramentos necessários, ainda que sob fortes críticas da Fifa e da imprensa local e internacional, e, no geral, enfrentando os próprios protestos e ceticismo da sociedade. Embates políticos e interesseiros tomaram a ação das obras; greves, algumas oportunistas, começaram a comprometer o calendário dos projetos; e, ano após ano, o Brasil foi mostrando a irresponsabilidade de seus governantes e da CBF. Na semana de abertura da Copa, e depois de quase 30 bilhões de investimentos, pelo menos 90% bancados pelos contribuintes, os resultados estão aí: algumas arenas ainda inacabadas; todas com orçamento estourado; entulhos, poeira e lama nos arredores; praticamente todos os aeroportos das sedes ainda em reforma; ínfimos avanços em mobilidade urbana; dúvidas sérias quanto ao transporte público; medo e reticências com a segurança e o crescente banditismo; telefonia e internet duvidosas. Ao invés de cumprir o prometido, as autoridades municipais, estaduais e federal golearam o Brasil, e não acertaram o travessão, marcaram sem dó, de dentro e fora da área, todos os gols contra, alguns, “gols de placa”, muitos, indefensáveis. Deram de ombros aos esbravejos da torcida.

A vitória de 4-1 na Itália no Azteca segue sendo o último grande “passeio” numa final de Copa e fica atrás apenas do próprio Brasil de 58, quando marcou cinco na Suécia e iniciou nos gramados seu destacado gosto por títulos mundiais. Na terra asteca, em 70, o Brasil fez do tato e do jeito com a bola seus aliados no meio de campo, nas zagas, na defesa, e no ataque. Onze foram um, e um foi onze. O conjunto estelar logrou, em dribles, técnica e brilhantismo sua própria praxe de vitória após vitória. Sua solidez foi capaz de mais: manter praticamente intacta a imagem do futebol brasileiro por anos seguintes. Mesmo com as outras pomposas seleções que tivemos, como a de 82, o Brasil seguiu seu maior jejum de títulos, depois do primeiro, em 58, até chegar Pasadena, na Califórnia, e nosso demorado tetracampeonato, em 94. O certo é que mesmo sem títulos o Brasil sempre seguiu sendo um gigante deste esporte. Se o futebol é um fértil celeiro de atletas inteligentes e hábeis, o Brasil fez dele seu terreno, e, de seus passes, sua glória. A oportunidade, portanto, de trazer o Mundial de volta ao Brasil seria outra glória inteira, tivessem os governos focado no potencial desses eventos globais, isto é, o que fica para seu povo como legado. Seria, outrossim, uma preciosa chance de o Brasil mostrar que é sério e que possui condições de lançar-se, convincentemente, ao grupo de países desenvolvidos. Nunca o país esteve tão exposto ao mundo como agora. A chance de êxito pleno, todavia, já foi desperdiçada. Como dizíamos em 2011, “O Brasil está sonhando, quando deveria estar desperto.” De fato, não despertou. O que realmente sempre esteve em alta foi o custo escandaloso das impecáveis arenas erguidas para o torneio. Em 2007, quando escolhido para sediar o Mundial, com lobby do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil entusiasmava a todos. O próprio Lula e o ministro dos Esportes, Orlando Silva, alardeavam aos quatro ventos que dinheiro do contribuinte não seria utilizado nas arenas. Foi uma grande mentira e uma rasteira na população. O saldo hoje aponta para apenas três arenas privadas (Arena da Baixada, em Curitiba; Beira Rio, em Porto Alegre; e Itaquerão, em São Paulo) e nove erguidas totalmente com verbas públicas. Mesmo as três privadas receberam linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Caixa Econômica Federal, ambos estatais. No Amazonas, por exemplo, a construção do estádio, erguido pela Andrade Gutierrez, orçada em R$ 513 milhões saltou para mais de R$ 620 milhões. Destes, R$ 400 milhões financiados pelo BNDES e R$ 105 milhões pela Caixa. O Tribunal de Contas da União, numa auditoria, viu sobre preço e superfaturamentos, e os construtores foram obrigados a rever o orçamento sob pena de o BNDES não repassar o dinheiro. De nada valeu. O custo hoje passa de R$ 700 milhões. Nas três vezes que visitamos a cidade, as obras estavam paradas por suspeita de irregularidades, greves, e por mortes de operários. O povo amazonense, pouco interessado em futebol, não entende sequer a razão de a cidade ser sede do Mundial. Em junho de 2012, numa das visitas, conversamos com moradores do bairro Flores, onde fica a arena, e eles estavam desapontados e sem qualquer interesse. A obra, então, estava tão atrasada que ainda se pensava em quais propriedades desapropriar no entorno para construir o futuro estacionamento da arena. Manaus não tem nenhum grande clube de futebol; assim, o custo da milionária arena foi integralmente bancado pelo povo. Construíram um belíssimo estádio de futebol para 44,5 mil pessoas numa cidade onde a média de público nos jogos do Campeonato Amazonense nem chega a 1000. Como a população de Manaus não se revolta? A ela foi prometido um novíssimo e moderno sistema VLT – veículo leve sobre trilhos. Não vimos nem sinal desta iniciativa. Do contrário, ficamos parados por horas na Avenida Constantino Nery, o principal eixo da cidade. Para Manaus, além da preciosidade da Arena da Amazônia, ficou a conta milionária a ser paga pelos manauaras. Fizeram de tudo para superfaturar a obra. Para se ter uma ideia, as megaestruturas dos arcos do estádio em forma de cesta, homenagem ao artesanato indígena, foram importadas de Portugal, sendo necessários três carregamentos de navios que encareceram sobremaneira o projeto. No Amazonas, a verdade mais sibilante que resta é: a autossustentável, biodegradável Arena da Amazônia, de teto monumental e autolimpante, contrasta muito com a realidade de quem está pagando por todo este luxo mas vive de salário em salário, milhares na pobreza absoluta. Manaus, por conta de seu natural isolamento, sofre mais que as outras 11 sedes com o crescente preço dos serviços e com ou aumento inflacionário que atinge o Brasil inteiro. A pesquisa mais recente do Pew Research Center apontou que 72% dos brasileiros estão descontentes com os rumos do país. Quem visitar a capital amazonense verá que lá, a prioridade não deveria ter sido a construção de um belíssimo elefante branco. Os governantes que cometeram este desatino alimentado pelas trombas dos cofres públicos certamente não deixarão o mesmo legado de alegria que deixou, enquanto jogava e quando parou de jogar bola, nosso grande e maior atleta, o rei do futebol.

Depois daquele último gol no Estádio Azteca, Edson Arantes do Nascimento, nosso admirável Pelé, não defendeu nosso time em copas seguintes. Continuou jogando pela Seleção mas não chegou ao próximo Mundial, na Alemanha, e parou de jogar pelo Brasil em 71. Não obstante, a refulgência e o significado de sua chuteira em tempo nenhum foram pendurados. Pelé ajudou o Brasil a ensinar ao mundo o que é futebol, reinventando por si mesmo esta arte esportiva. É um recordista incontestável dos gramados, inspiração para todas as gerações que o seguiram e, sem dúvida, modelo para muitas outras que virão. Num país onde uma sacola de plástico envolve papeis que formam uma bola que rola em campos de grama, de lama, ou de tauá, rumo a traves de ferro, de pedra, ou mesmo imaginárias, o êxito de Pelé, um exímio atleta, alimenta alegrias, prazeres, sonhos e ideais. Meninos e adultos, ao saberem e conhecerem sua história, e verem seus gols, sonham em ser um jogador de futebol. Assim, amor, paixão e exagero orbitam em bolas lentas, velozes, erguidas ou deslizadas na área rumo ao furor de balançarem a rede, ou, na ausência desta, se perderem nas várzeas. Por ser o Brasil sinônimo de futebol, trazer a Copa de 2014 seria a belíssima oportunidade de uma nação que já passava por um excelente momento em sua história – reconhecida como líder regional, influente em algumas frentes internacionais, um BRIC, enfim, – consolidar no cenário internacional a imagem de um Estado comprometido com sua população e no limiar do desenvolvimento. A boa organização deste megaevento aliada a uma sólida infraestrutura, como rodovias seguras, transporte público eficiente e digno, projetaria o Brasil como um grande player global. Além do mais, estes eventos planetários podem deixar um incrível legado ao país, lançando-o de forma definitiva ao turismo sustentável, garantindo o presente e o futuro tanto de pequenos e grandes empresários quanto de ambulantes. Apesar de ter belezas de tirar o fôlego, o turismo internacional no Brasil ainda é tímido. Perde para os vizinhos Argentina e Chile, proporcionalmente. Dessa maneira, a Copa seria uma indispensável chance de o país, no holofote do mundo, no interesse da atenção, concretizar seu sonho de modernidade, da tecnologia, e, sobretudo, trazer uma imagem perceptível de credibilidade moral. Mas, não, o que vimos, desiludidos, foi o Brasil sair pela tangente, gastando as reservas do país com construções de estádios de futebol que serão entregues ao lucro privado e pecando ao descumprir liturgias básicas. Outrossim, vimos, espantados, os fortes indícios de alegada corrupção, a inaceitável e total isenção fiscal à bilionária Fifa, os superfaturamentos das obras, a construção imponente de elefantes brancos em cidades sem qualquer expressão no futebol, e, para o glacê do bolo que o contribuinte não vai saborear, a quase total falta de compromisso e celeridade com metas firmadas nacional e internacionalmente. O Estádio Nacional Mané Guarrincha, em Brasília, por exemplo, a arena mais cara da copa, que soma, com as obras ao seu redor, quase dois bilhões de reais, não terá uso contínuo para o futebol local. Nem mesmo no antigo Mané os times da capital federal – Brasiliense, Brasília e Gama – levavam expressivo número de torcedores ao estádio. Preencher 70 mil assentos e reverter a renda dos jogos para ressarcir os contribuintes do Distrito Federal é uma utopia tão larga como o Planalto Central. Embora sejam de multiúso, as arenas de Brasília, Cuiabá e Manaus não possuem, em si, razão de existência. O pensamento de que a Copa precisaria acontecer em Brasília por ser capital federativa pusilanimemente justifica o ônus pago pelo erário. Cuiabá é outro exemplo de desperdício de verba pública; similarmente, a região norte poderia bem ter sido representada por Belém (PA), cidade com mais presença de futebol. O Brasil não precisava dessa quantidade de estádios para realizar a Copa. A Fifa pediu entre oito e dez, mas os governantes queriam não apenas 12, mas insistiram muito em 17. A pendenga para eleger as capitais levou quase três anos, tomando precioso tempo de preparação para o Mundial. Afinal com 12 sedes, uma verdadeira fanfarra tomou conta do senso crítico dos organizadores. Ao invés de agir, começaram a projetar um estrelato para si próprios prometendo obras totalmente inviáveis e irreais. As necessárias, como o trem-bala, ligando as sedes de abertura e término do torneio, ainda não têm previsão de sair do papel. Recentemente, em Natal, encontramos o entorno da Arena das Dunas um verdadeiro canteiro de obras, sem aparente prazo para terminar. Ainda estavam, em abril, construindo o principal viaduto de acessibilidade à arena. Trânsito caótico, nervoso e o povo descrente foi o que observamos. Na via hoteleira da cidade, percorremos toda a orla urbana, incluindo Ponta Negra, cuja reforma foi particularmente paga pelo governo federal depois da destruição causada por uma maré de lua cheia. A reestruturação se arrasta por três anos. Em abril, estavam quebrando asfalto e erguendo quiosques. Na semana passada, num tom de bom senso e menos enganador, o secretário municipal de Serviços Urbanos de Natal, Raniere Barbosa, informou que o projeto de revitalização da orla de Ponta Negra não ficará pronto até a Copa. A Arena das Dunas, que encontramos, em 2011, na terraplanagem, depois da demolição do estádio municipal Machadão, é um primor. Ninguém sabe realmente é quem jogará naquela preciosidade depois da copa, já que o ABC e o América têm estádios próprios. Dessa maneira, diferentemente de Pelé, os organizadores da Copa e o governo brasileiro não outorgaram glórias à imagem do país. Pelo contrário, aguçaram a descrença e a justa revolta dos cidadãos que veem o dinheiro de seus impostos ir parar na Suíça, e onde mais seja. Alemanha, França, Estados Unidos, Japão nem cogitaram isentar de impostos a Fifa quando organizaram seus recentes mundiais.

É óbvia a noção de que um evento de proporções globais, dita a mais esperada Copa desde que o torneio foi criado em 1930, custaria bastante ao Brasil. Também, é óbvio que não precisava ser a mais cara de todas, consequentemente, a mais rentável Copa à Fifa, uma instituição que não consegue afastar-se de acusações de corrupção, mas, ingrata com “generosidade” do Brasil, respondeu dando-lhe um “chute no traseiro”. O que causou, contudo, o acentuado pessimismo do brasileiro em relação ao evento não foi, integralmente, o vultoso custo das preparações, mas, principalmente, o fato de o desenvolvimento sócio estrutural não ter acompanhado o ostensivo luxo das arenas. Também, se mostra inaceitável, incoerente e amoral os financiamentos bilionários por parte de bancos estatais para favorecimento de poucos. Ao passo que as novas arquibancadas eram erguidas ao custeio do povo, a bandidagem que assola as cidades brasileiras não diminuiu; à medida que as novas cadeiras padrão-Fifa eram instaladas, o transporte público não melhorou. Enquanto caríssimos telões de alta resolução eram montados, a saúde pública negligenciava os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). As arenas nas cidades de São Paulo, Recife e Manaus são circundadas por pobreza gritante. Isso faz engasgar qualquer pessoa que acredita na democracia brasileira e em suas instituições e nota que o país tinha outras e mais nobres prioridades, principalmente quando a nossa economia não vai bem e nosso crescimento em 2013 patinou em tímidos 2,3%. A legítima angústia do brasileiro encontra base justamente em perceber que apesar de, contrariadamente, ter bancado, ao revés do que foi dito, bilionários estádios, o bem-estar social não evoluiu igualmente. Importantes obras públicas da Matriz de Responsabilidades do governo federal foram paralisadas, canceladas, e algumas não saíram do papel; foram planejamentos vazios de ação que fazem lamentar muito o povo brasileiro. Em 2007, escutávamos falas entusiasmadas como esta de Lula: “Imaginem o que nós vamos ter que construir de obras de infraestrutura, o que a iniciativa privada vai ter que construir de palcos para os eventos”. Muito ficou num distante imaginário, como o novo terminal do aeroporto internacional Pinto Martins, em Fortaleza; a linha férrea de Cuiabá, ainda inacabada; os VLTs de Manaus e Natal. “A Copa das Copas” virou a copa da frustração, infelizmente. No Rio, por exemplo, é estarrecedor perceber que se gastou mais R$ 1,3 bilhão na reforma do Maracanã para entregá-lo ao lucro privado, enquanto o aeroporto Antônio Carlos Jobim (Galeão), por onde estão chegando milhares de convidados, está inacabado, mesmo já tendo sido “inaugurado” pela presidenta Dilma Rousseff. O que foi feito, reconheçamos, é puro esmero. A nova extensão do aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek, em Brasília, é de se orgulhar. Modernas, eficientes e confortáveis, as novas instalações trazem um sabor digno de bom emprego dos recursos do país. As promessas não cumpridas e o vexame, em contrapartida, presenteiam a sociedade brasileira com o desrespeito.

Ainda assim, a Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 será um enorme momento de celebração para nosso país em sua condição intrínseca de acontecer novamente, apenas pela segunda vez, na terra do futebol. É apropriado dizer que esta Copa do Mundo está para o Brasil como as Olimpíadas de 2004 estiveram para a Grécia. Como os Jogos Olímpicos voltaram à casa, o futebol volta ao lar. Mesmo ultrajados com os gastos exorbitantes de um ostensivo exibicionismo que não representa sua realidade, os brasileiros devem se lembrar de que a Seleção Brasileira não é o algoz de suas decepções e angústias; ao contrário, tem nos enchido de orgulho e acalentado nossos problemas. Por meio de uma dispendiosa e ufanista campanha publicitária internacional, ora, paga pelos contribuintes, o Brasil convidou centenas de milhares de pessoas à nossa soleira. Neste momento, deixemos que a deselegância do desconforto oferecido aos visitantes, alguns que estão viajando até 48h para estar aqui, esteja nos ombros dos organizadores que fizeram mau uso de nossos recursos. Distanciemos das burlas dos governos o brilhantismo de nossos craques. Recepcionemos nossos convidados ao fervor do calor humano brasileiro, tão exaltado no mundo. Mostremos, com categoria, nossas alegrias, hospitalidade, carinho e respeito, credenciais intocadas do nosso povo. Quem precisa se explicar e se envergonhar com as grotescas e evitáveis falhas são os regentes. No desequilíbrio do condutor, a orquestra bonita por natureza não desentoa as notas. Os brasileiros não precisam seguir desvarios. Esta Copa será de alegria pois temos o elemento principal: o povo cativante. Não precisávamos, é verdade, da complexidade oferecida pelos organizadores, já que nossa realidade é diferente. Mas os milhares de visitantes já sabem que foram os governos que deram um salto maior que as pernas. Eles, ademais, conhecem nossa tradição de povo símbolo do regozijo, da simplicidade, e da acolhida. Nossos problemas sociais também são conhecidos, mas não ofuscam nossa ordem. Assim, realmente, os irados entre nós que queimarem nossa bandeira e promoverem a arruaça, devam saber que não estão pluralisticamente representados, pois não há manifestação pela dissolução da Pátria brasileira. Nosso Pendão é da esperança, não é do tumulto e da desordem. Tablados democráticos, as ruas estão abertas a quem quiser manifestar, mas que não seja quebrada a linha da unidade de uma gente que se orgulha do seu país, mesmo com atrasos e defeitos. Lamentavelmente, não há como corrigir por completo sete anos de morosidade. Não há possibilidade de o torneio ser adiado. Não há como sentirmos menos incomodados com o desperdício, com o desmando, com a incompetência e com a sonolência que, em Brasília, só não existiu no momento de assinar a liberação das receitas. Portanto, em face de tantos “nãos”, vamos dizer “sim” a quem atendeu ao convite do Brasil e se interessou por sua cultura, por sua gente e por sua identidade. Bem assim, apreciemos a Copa que sonhávamos ter de volta, e que seja notável nossa habilidade em contornar a decepção que temos de nossos líderes. Deixemos nossos corações palpitarem à vontade em grandes partidas de futebol. Escancaremos nossa paixão por este esporte. Que o mundo seja bem-vindo à nossa terra, conheça-nos integralmente, e festeje conosco. Que o mundo sambe, forrozeie, grite, sinta-se parte do Brasil, delicie-se com nossa culinária inigualável, aprenda sobre nossos ritmos musicais e aprecie nossas belezas. Que o mundo perceba nossos “Pelés” e nossos bons “cabeceios”, e celebre conosco o futebol. Que o mundo solenize nossos méritos, desculpe nossos percalços e não comemore nossas falhas. Que o mundo não fure a defesa de nosso time. Que o mundo identifique-se com nossa gente e com nossa cultura. Claro, que o mundo não jogue futebol igualmente brilhante ao que jogar a Seleção Brasileira, pois o hexacampeonato está somente sete jogos adiante de uma única equipe capaz de conquistá-lo neste Mundial. Viva o Brasil, e “Vamos juntos, vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a Seleção”!

Fabrício Silva é jornalista.