Zanone Rodrigues

Apesar do medo de levar uma taca e da vergonha que passei pra largar de ser besta, uma das coisas que mais me encantam até hoje é a genialidade do “Homem da Cobra”. Para quem 

não sabe, ele é um homem falante, de inteligência rara, vendedor nato e com um poder de persuasão capaz de aglutinar multidões ao seu redor em questão de poucos minutos, apenas
com uma mala cheia de remédios e um caixote onde diz ter uma cobra “ensinada”.

Geralmente se estabelecendo numa praça da cidade ali começa o seu magistral espetáculo onde, aguçando a curiosidade dos expectadores sobre as proezas da cobra ensinada, ele vai
vendendo medicamentos que jura combater todos os males que alguém já ouviu falar ou, se não ouviu, vai ficar sabendo através dele, incluindo aids, coqueluche, caxumba,
tuberculose, espinhela caída, ventre virado, quebranto, cegueira, sarampo, catapora, varíola, rubéola, “zipele”, difteria, disenteria, azia, má-digestão, gogo, gagueira,
pneumonia, resfriado, gripe, meningite, feiura, inveja, paixão recolhida... e por aí vai.

E numa ocasião dessas quando eu voltava pro sítio onde morava (Água Boa), acerca de cinco quilômetros da cidade, vi um movimento numa praça e como menino curioso, resolvi dar
uma olhada e lá estava um deles, só que ao invés de uma cobra; havia um Tiú deitado de barriga pra cima, com um cigarro apagado numa das patas dianteiras e um fósforo na outra.

Tava ali o famoso tíu fumante, o único do planeta, internacional, coisa de outro mundo, onde apenas aquela “privilegiada” multidão que o cercava (e eu orgulhoso no meio dela)
teríamos a chance de vê-lo fumar naquela tarde, naquela cidade, naquele estado, naquele país. Dizia o homem entusiasmado e a multidão mais ainda. E eu até rezava para que nenhum
colega aparecesse ali, pois queria espalhar, sozinho, aquela fenomenal novidade na escola, na Água Boa e por toda região.

Mas o tempo foi passando, passando e quando percebi, o sol já havia se escondido atrás das mangueiras, o bendito réptil preguiçosamente deitado do mesmo jeito, e como não havia
mais remédios na caixa (todos vendidos), disse o Homem da Cobra ou melhor, do Tíu: olha gente, como tá ficando tarde, hoje não vai dá mais tempo, mas amanhã eu prometo que o Tiú
vai fumar.

Resultado: cheguei em casa completamente no escuro e confesso que o tiú não, mas a cobra, só não vi fumar de verdade, porque minha mãe, com um chicote na mão, teve dó da minha
inocência. A final, quem é que já viu um tiú fumar?


Zanone da Água Boa Rodrigues é poeta de cordel.