Zanone Rodrigues

Para quem não está lembrado, Pedro das Malasartes ou Pedro Malasarte, segundo o nosso rico folclore, era um homem muito astucioso, perspicaz e com uma engenhosidade ímpar de enganar as pessoas de boa-fé , inocentes e de bom coração. Hodiernamente seria um daqueles aplicadores do conhecido golpe “bença tia”.

Só que, enquanto aquele era conhecido apenas nos contos e livros de cordel, em Dianópolis eu testemunhei o próprio, verdadeiro, em carne e osso.

Wilson ou mais conhecido por Suriano (sem correspondente no volumoso dicionário Aurélio). Grande amigo meu, apesar das várias ameaças de morte que sofri do próprio, por causa dos dos versos rimados que fazia a cada travessura feita, (e o pior é que ele também gostava e até os recitava nos botecos, se vangloriando das travessuras e traquinices que aprontava).

Aqui vai só uma delas (que felizmente não deu certo):

Certa vez, desesperado pra tomar uma e sem um só tostão no bolso, Suriano não se fez de santo, pensou, pensou e como sempre, não foi difícil encontrar um jeito, ou melhor, a solução que estava diante de seus olhos, ou dentro de uma gaveta: uma receita médica. Agora só faltava a vítima.

E o Bar de Miguelzinho veio à mente como o lugar ideal, primeiro, pela bebida e segundo porque lá certamente haveria alguém e havendo, esse fatalmente haveria de pagar a conta.

Nem que esse fosse o dono, ou seja, o próprio Miguelzinho.

Mais ou menos onze da noite e Miguelzinho já fechava a última porta do bar quando ele chegou “ chorando” e ajoelhando aos seus pés, pronunciou as últimas palavras de um marido apaixonado, desesperado, completamente desolado: sua mulher estava à beira da morte, era tudo ou nada, ou ele conseguia o dinheiro dos medicamentos naquele instante ou haveriam dois enterros no dia seguinte, pois sem sua amada a vida não teria mais sentido, era melhor suicidar-se e partir com ela, numa só viagem.

Miguelzinho com as chaves da porta na mão, pensativo e preocupado, tentava confortá-lo. Inutilmente. Nada acalmava o choro daquele homem apaixonado.

As pessoas falam que sou malandro, Miguelzinho, mas aqui está a prova da verdade, e tirando do bolso a bendita receita médica, sentenciou: ou consigo o dinheiro pra comprar estes remédios agora ou minha mulher morrerá dentro de meia hora. - Era ele justificando o seu pranto dolorido e eliminando qualquer dúvida sobre sua conhecida má-fama.

Convencido de que não havia outro jeito senão o de ajuda-lo naquele momento de vida ou morte, Miguelzinho pediu-lhe a receita pra ver quanto custaria a soma dos remédios nela prescritos.

Mas como diz o ditado que não há crime realmente perfeito, um anjo do Senhor despertou sua mente naquele triste momento. E num instante de inspiração vinda do céu ele fez a
seguinte pergunta: quando foi que sua mulher começou a passar mal, Suriano?

Hoje, Miguel. Passei o dia inteiro com ela no hospital. Ainda ontem estava completamente sadia e feliz. Pra ver como são as coisas, e se você não tiver misericórdia dela, estará morta daqui a meia hora. – Completou ele arrematando o golpe e ainda por cima com uma dose de chantagem emocional.

Então quer dizer que tudo começou hoje? – Miguelzinho perguntou-lhe novamente já vermelho como um pimentão. E enquanto procurava reler aquelas famosas letras de médico no cabeçalho, Suriano já estava a uns cem metros de distância.

Motivo: era uma receita velha, há mais de seis meses engavetada no armário.

Zanone da Água Boa Rodrigues é poeta de cordel.