Zanone Rodrigues

Era ainda muito criança mas nunca me esqueci deste magnífico e intrigante caso de fé contado por meu saudoso tio Duca: Havia num recanto distante e desprovido de qualquer recurso médico, um jovem que padecia de uma insuportável e enlouquecedora dor-de-dente. Após três dias de agonia sem fim, uma velhinha, compadecendo-se do sofrimento daquele jovem resolveu ajuda-lo, pedindo-lhe que a deixasse benzer aquele rosto desfigurado pelo inchaço latejante de dor que já beirava os limites do insuportável.

Oração que cura dor-de-dente é boticão de dentista . – Respondeu-lhe o jovem atordoado e impaciente como uma fera acuada nos fundos de um beco sem saída.

Silenciosamente a pobre velhinha retornou à sua morada humilde. Dois dias depois, porém, ou quase uma semana de martírio profundo, vencido pela dor que não dava trégua, ele resolveu aceitar a ajuda daquela frágil senhorinha de terceira idade.

E ela, apenas com um raminho verde nas mãos, benzeu suavemente aquele rosto disforme e do alto de sua fé inabalável ordenou ao jovem moribundo: “cuspa este dente que tá lhe incomodando, meu filho”.

E como se tivesse sentido apenas um pequeno sopapo em sua mandíbula, o jovem cuspiu o dente estragado. (!!??)...

Deste extraordinário acontecimento eu cheguei à conclusão de que a nossa fraqueza espiritual não está na incerteza sobre a existência de Deus; mas na dúvida que criamos antes alimentarmos a nossa própria fé.

 


Zanone da Água Boa Rodrigues é poeta de cordel.